A costa atlântica de Marrocos é, na prática, uma única praia que se estende por mais de dois mil quilómetros desde o estreito de Tânger, passando por Rabat, Casablanca, Essaouira e Agadir, e descendo pelo deserto até Dakhla. Ninguém a trata como uma só praia. O surf está ao centro, o vento nas duas extremidades, e os longos areais vazios são os sítios onde existe uma aldeia, uma estrada e pouco mais.
A outra costa, a mediterrânica, a nordeste, parece outro país: mais pequena, calma e muito menos frequentada por quem procura mar.
A costa do surf: Taghazout e as praias junto a Agadir
Taghazout é uma aldeia de pescadores a 19 quilómetros a norte de Agadir, centro do surf em Marrocos desde os anos 60, quando um areal a sul da vila foi tomado por tendas, abrigos improvisados e autocaravanas. O acampamento já não existe, deram lugar a hotéis, mas o atrativo mantém-se: uma série de longos point breaks para a direita, numa costa onde a água é mais quente do que o mar que traz o swell.
Anchor Point, três quilómetros a norte da vila, é a onda famosa. Com condições certas, o percurso começa ali, continua em Hash Point e termina no beach break do Panorama’s, no total, quase dois quilómetros de onda. A temporada vai de setembro a abril, a água nesses meses ronda os 21 graus, e há aulas e aluguer de pranchas na própria vila.
Este troço tem opções para todos os níveis. As praias a norte de Agadir alinham-se junto à estrada, e a lista serve como roteiro: Tamawanza a 12 quilómetros da cidade, Imouran a 17, Taghazout a 19, Bouyirdn a 21, Timzguida allal a 22, Imiouadar a 27 e Aghroud a 30. Mais a norte, Imsouane e o extenso areal da baía de Taghazout são as apostas recentes.
As vilas do vento: Essaouira e Dakhla
Duas zonas desta costa são conhecidas pelo vento em vez das ondas e situam-se nas extremidades. Essaouira recebe o vento alísio da parte da tarde, que sopra quase todo o ano e fez desta praia um destino de windsurf e kitesurf há décadas. A vila muralhada, com porto de pesca, compensa a estadia de uma semana em vez de apenas um fim de semana.
Dakhla é a outra. Fica no Saara Ocidental, território que Marrocos administra desde 1979 e que continua em disputa, e é tão a sul quanto se pode chegar de estrada. A lagoa é rasa e plana, o vento regular, e a vila é hoje centro para kitesurf e windsurf, além de porto de pesca. Ostras cultivadas aqui seguem para restaurantes em Marraquexe e Casablanca e depois para a Europa, e a nascente termal de Asmaa, a 36 quilómetros, sai do solo a 38 graus vinda de um furo com 700 metros de profundidade.
Águas tranquilas: Oualidia e dias sem ondulação
Para quem quer praia sem prancha, o segredo aqui é escolher lagoa. Oualidia, entre El Jadida e Safi, fica junto a uma lagoa natural protegida e é apelidada capital das ostras, sinal de águas pouco mexidas. As ostras cultivam-se por ali e comem-se mesmo à beira da água.
Qualquer vila de surf tem também uma zona abrigada para dias sem ondas. A norte de Agadir, as baías de Bouyirdn e Imiouadar são escolhas populares, e no sul toda a lagoa de Dakhla tem água pela cintura a centenas de metros da margem. Se preferes mar sem onda, aposta num estuário, numa lagoa ou numa baía protegida, e confirma sempre o que faz a maré antes de programar um dia lá.
O extremo sul: uma costa quase constante
Dakhla merece destaque pela singularidade dos números face ao Atlântico. É um deserto ameno, apenas 30,8 mm de chuva por ano distribuídos em cerca de cinco dias, máximas diárias médias entre 22,4 e 26,5 graus ao longo de todo o ano, 77 por cento de humidade e 3.174 horas de sol. A Corrente das Canárias modera a temperatura do mar, razão pela qual uma praia fria em Agadir pode ser amena aqui; a mesma corrente alimenta a pesca local.
É mais do que uma praia. A península de Dakhla e a baía de Cintra são zonas de invernada para limícolas e flamingos, e a lagoa transformou a vila num centro de vela. A vila tem aeroporto com pista de três quilómetros e voos diários, e o extremo sul passou a ser uma viagem mais fácil.
Notas práticas para um dia de praia marroquino
Dois pontos desta costa merecem atenção antes de estenderes a toalha. Primeiro, o mar é frio comparado com os países de onde chegam os visitantes: devido à Corrente das Canárias, a água está fresca o ano inteiro, o ar pode ter 27 graus e o mar 19. Segundo, há poucas praias com nadador-salvador, e o swell que faz o point break divertido também cria correntes.
Faz como fazem por lá: nada onde os outros nadam, pergunta no hotel sobre a praia, não só sobre o tempo, e deixa os rochedos e point breaks para quem tem prancha. A recompensa é uma costa onde, numa terça-feira de setembro, ficas com a praia por tua conta.