O Egito tem a ferrovia mais antiga de África e do Médio Oriente, inaugurada em 1854, e continua a ser a principal forma de deslocação do país: cerca de 800 milhões de passageiros por ano, uma rede centrada no Cairo e Alexandria, e uma linha ao longo do vale do Nilo, do Mediterrâneo até Assuão. Para quem visita, é uma opção económica e cómoda, e no trajeto Cairo, Alexandria é mais rápida do que a estrada.
A experiência divide-se em dois tipos. Nas linhas principais tens carruagens climatizadas em primeira e segunda classe, lugar marcado e chá. Nos serviços suburbanos e rurais, há segunda e terceira classe sem ar condicionado, preços muito baixos por decisão social e um ambiente totalmente diferente. Não é melhor nem pior, mas são serviços distintos, e é o bilhete que determina onde viajas.
A grande viagem para sul
A viagem que serve normalmente de eixo a um roteiro é o Cairo a Luxor, continuando para Assuão. Durante o dia, são nove a dez horas até Luxor e mais cerca de três até Assuão, descendo o vale com o Nilo de um lado, campos e palmeiras dos dois, e o deserto a surgir ao entardecer. É um percurso lento e paisagístico, uma boa combinação se não tens pressa.
A alternativa é o comboio noturno, que transforma a viagem numa noite. O serviço noturno faz-se todos os dias nos dois sentidos, de Alexandria ao Cairo, Luxor e Assuão, com cabines duplas privadas, um beliche em vez de cama, e jantar e pequeno-almoço incluídos. Embarcas ao final do dia, dormes pelo meio do nada e sais em Luxor ou Assuão de manhã, já pronto para aproveitar o dia. No inverno esgota, por isso convém reservar com toda a antecedência possível.
Cairo a Alexandria, que é a fácil
A linha para o Mediterrâneo é a mais prática para uma viagem curta: duas horas, várias partidas ao dia, e a diferença de preço entre primeira e segunda classe é pequena. Os comboios partem da estação Ramsés no Cairo e chegam a Misr ou Sidi Gaber em Alexandria, ambas ligadas ao elétrico e à rede de táxis.
Se nunca apanhaste um comboio egípcio, começa por este. Vais perceber o sistema, a plataforma, a validação de bilhete, o carrinho de comida e o habitual: anúncios em árabe seguidos de inglês, se estiveres junto da porta certa.
Reservas, classes e o que esperar
Os comboios normais podem ser reservados pelo site e app da companhia, ou comprados na estação, o que costuma ser mais económico e funciona fora dos picos. O noturno tem canal próprio de vendas. Leva o passaporte, pois os passageiros estrangeiros podem ter de o mostrar, e guarda sempre o bilhete: os revisores circulam nas carruagens e nem sempre há sinalização em inglês nas plataformas.
Sobre as classes: primeira é mais espaçosa, silenciosa e com menos gente, segunda é confortável e quase igual nas viagens mais curtas e terceira é onde se encontram os preços baixos. Para viagens longas, compra a classe que conseguires e usa-a; o bilhete indica a carruagem e, se ficares na errada, vais ter sempre de explicar.
Conta com atrasos, encara o horário como plano e não tanto promessa, e nunca marques voo e comboio no mesmo dia sem deixar pelo menos um dia de intervalo. Leva água, porque o carrinho passa de vez em quando, e comida para as viagens longas, porque a carruagem-restaurante pode não estar sempre disponível.
Segurança e futuro
Viajar de comboio no Egito é normal e banal, e para longas distâncias é a escolha da maioria. A rede já registou acidentes, em particular em passagens de nível e zonas antigas, de onde veio a aposta na modernização e a construção da linha de alta velocidade para ligar o mar Vermelho ao Nilo e Mediterrâneo. Isso vai mudar estas viagens quando abrir; por agora, existem o noturno e os comboios de dia.
A segurança prática é a do comum: mantém a bagagem contigo ou no suporte acima, usa a classe do bilhete, evita os comboios muito tardios se viajares sozinho, e lida com os taxistas das estações como farias noutro lado: acerta sempre o preço antes de entrar.
Os comboios egípcios são antigos, baratos, lentos e práticos, e o noturno em direção a sul é das poucas experiências de viagem no país que te permite deslocar e pernoitar em simultâneo. Reserva cedo, compra a mais prática classe possível para as distâncias longas, e deixa o Nilo desenrolar-se à janela.