A estrada desde Erfoud segue para sul pelo Tafilalt, entre palmeirais e os últimos hotéis e bombas de combustível antes do deserto, até que a paisagem fica plana e clara. As dunas aparecem numa linha ocre no horizonte e vão crescendo durante meia hora, até se chegar a Merzouga, onde termina o asfalto e começa a areia.
Essas dunas são o Erg Chebbi, um mar de areia com cerca de 28 quilómetros de comprimento e cinco a sete de largura, mesmo junto à fronteira com a Argélia. Sobem até 150 metros acima da planície pedregosa ao redor, e por isso parecem uma onda e não um relevo contínuo. A aldeia fica no lado oeste, protegido do vento e com a água menos funda.
- Altura das dunas
- 150 m
- Comprimento do Erg Chebbi
- 28 km
- De Rissani a Merzouga
- 35 km
- Altitude do mar de areia
- 730 m
Como funciona uma noite nas dunas
Quase todos fazem o mesmo, e faz sentido: sair da aldeia no fim da tarde, de camelo ou de 4x4, chegar a um acampamento no erg exterior, subir uma crista para o pôr do sol, jantar, ouvir tambores e passar a noite numa tenda. Acorda-se antes do sol, sobe-se a duna mais próxima no escuro e vê-se a luz a espalhar-se pela areia.
A escolha que importa é onde se dorme. Num acampamento dentro do erg não há paredes, nem rede nem luz além da fogueira e das estrelas, e à noite faz frio uma parte grande do ano. Numa guesthouse da aldeia há duche quente, luz e a areia logo ao pé, que é o mais prático para famílias, em julho ou depois de conduzir muito até ali. Os acampamentos podem ir de simples anéis de tendas com casa de banho partilhada até versões com casas de banho privadas e tapetes no chão, e a diferença de preço é grande.
Qual noite no deserto?
Queres dormir entre as dunas e não na aldeia?
Importas-te de ir uma hora e meia de camelo?
De camelo, para um acampamento no erg
Sais ao fim da tarde, páras numa crista para o pôr do sol e chegas a um círculo de tendas na areia. O jantar é tagine, depois há tambores, e o silêncio quando acabam é o que fica na memória.
Transfer de 4x4 para os mesmos acampamentos
Vinte a trinta minutos pelas pistas de areia, de janela aberta e com alguém que sabe onde parar na crista certa. Chegas com as costas no sítio, e ainda estás dentro do erg quando saem as estrelas.
Uma guesthouse em Merzouga
Cama a sério, duche quente, parede entre ti e o vento, e as dunas a poucos passos da porta. É a escolha sensata para famílias, para o pico do verão ou para quem quer acordar quente e entrar nas dunas ao seu ritmo.
Camelos, 4x4 e o que faz a areia
O camelo é o caminho lento e calmo: cerca de noventa minutos a andar, com um guia que costuma ser de uma família local com animais há gerações. Não é uma volta de feira, e são os primeiros vinte minutos de passeio que depois custam mais. O 4x4 faz o mesmo percurso em meia hora pelas pistas, melhor para quem tem dores nas costas, nos joelhos ou horário limitado.
Seja como for, o calor determina o ritmo do dia. Na primavera e outono pode-se andar pelas dunas quase o dia todo. No verão a areia aquece tanto que a meio da manhã já não se atravessa descalço, e tudo se faz nas duas horas a seguir ao nascer do sol e nas duas antes do pôr do sol. Uma tempestade de areia pode aparecer quase sem aviso, é mais incómoda do que perigosa, se tiveres um lenço e algum abrigo, e quem trabalha nos acampamentos já viu tudo antes.
Cinco datas à beira da areia
séc. VIII
Sijilmassa enriquece
O reino de Sijilmassa, junto ao que é hoje Rissani, a curta distância a norte, viveu das rotas de caravanas que atravessavam o deserto e comerciavam com o Sudão durante oitocentos anos, até à destruição no séc. XIV.
1916 a 1932
A Legião Estrangeira constrói fortes
Tropas francesas fortificaram o oásis durante as batalhas de Taflalet, travadas com os Ait Atta e outras tribos nas décadas de 1910 e 1920, altura em que a aldeia ficou com o traçado atual.
2006
A inundação
Na noite de 26 de maio, a água desceu pela ribeira seca e destruiu 140 casas e hotéis, desalojou 1.200 pessoas e matou três. Mesmo no deserto, é um risco a respeitar.
2019
Encerram acampamentos ilegais
As autoridades fecharam acampamentos do deserto que não comprovavam gestão de resíduos, consumo de água e infraestruturas, por isso convém verificar o acampamento que reservas.
2024
Os lagos voltam
Chuva forte em outubro encheu depressões secas há décadas, e o lago sazonal ao lado de Merzouga voltou a formar-se. É raro, e muda o aspeto de toda a planície por uma época.
Quando ir
De outubro a abril é a fase mais confortável: dias amenos, noites frias e areia que reflete a luz como prometem as fotos. As manhãs de dezembro e janeiro podem quase gelar, por isso as tendas trazem mais mantas do que pensas precisar. De maio a setembro os dias são duros, com passeios só nos horários periféricos, e o deserto fica menos acolhedor.
Chuvas são muito raras, mas acontecem e podem ser fortes. Em maio de 2006, uma cheia rápida destruiu 140 casas e hotéis e desalojou 1.200 pessoas da aldeia. Em outubro de 2024 aconteceu parecido, com depressões cheias depois de décadas secas. Não contes que os leitos secos junto à aldeia fiquem sempre assim.

Chegar, e a rede pelo caminho
Não há comboio nem aeroporto relevante por perto. As duas vias são desde Marrakech, pelo Tizi n’Tichka e Ouarzazate, ou desde Fez e Meknes atravessando o Médio Atlas e descendo por Errachidia e Erfoud, ambas são longas horas pela estrada. Muita gente escolhe uma excursão organizada justamente porque o difícil é mesmo conduzir, e os minibuses partilhados são uma solução intermédia razoável.
A rede não falta até faltar. Erfoud, Rissani e Merzouga têm boa cobertura e 4G, por isso deves comprar os dados e descarregar o mapa offline nesta zona. Já a alguns quilómetros dentro do erg a rede desaparece e os acampamentos ficam fora dela; por isso, leva o mapa, o pin do acampamento e o contacto de quem te vai buscar gravados antes de deixares a última vila. O acampamento é mesmo o lugar onde sabe bem não ser contactado.
Antes de largares o asfalto
0/8
O Erg Chebbi não é o deserto mais vazio de Marrocos, e Merzouga não é segredo. Mas é o sítio mais prático para ver um verdadeiro mar de areia, com acampamentos que facilitam a experiência; e aquelas duas horas antes e depois do sol baixo são tão bonitas como qualquer outra coisa no país. Vai por uma noite, escolhe o camelo e acorda para o nascer do sol.




