As pirâmides de Gizé não são três monumentos isolados na areia. São uma necrópole na orla do Deserto Ocidental, a treze quilómetros a sudoeste do centro do Cairo e a nove do Nilo, com três pirâmides reais, pirâmides menores das rainhas, templos, rampas, quatro cemitérios, os vestígios da povoação dos construtores e a Esfinge deitada a leste, voltada para o deserto. Tudo isto foi edificado durante a Quarta Dinastia do Antigo Império, entre cerca de 2600 e 2500 a.C., e a visita toma pelo menos meio dia, porque as distâncias internas são reais.
Uma necrópole, não três monumentos
O planalto é um sítio arqueológico em atividade, disposto ao longo de uma crista. A Grande Pirâmide está no extremo norte, a de Khafre a algumas centenas de metros a sudoeste, e a de Menkaure mais além. A Esfinge senta-se a leste, numa cota mais baixa e mais perto do vale, e o espaço entre os monumentos está preenchido com mastabas de funcionários e familiares, alinhadas em ruas e avenidas à medida que as pirâmides se erguiam.
A Esfinge não foi talhada num bloco e depois colocada no local. Foi escavada diretamente na rocha do próprio planalto, e o calcário retirado ao redor do corpo serviu para construir o templo à sua frente. Por isso o monumento está abaixo do nível do chão, e não por cima: pedreira e estátua são o mesmo processo.
As três pirâmides
A de Khufu é a maior e a mais antiga e ainda preserva alguns blocos do revestimento original na base. O revestimento era de calcário branco, de Tura, trazido de barco do outro lado do Nilo, e a maioria foi retirada durante a Idade Média para construir o Cairo, razão pela qual a pirâmide mostra hoje as faces internas em vez da inclinação lisa com que foi desenhada. O complexo envolvia três pirâmides menores para as rainhas e três fossas de barcos, numa das quais se encontrava o barco de Khufu.
A pirâmide de Khafre é aquela que muitas pessoas confundem com a Grande Pirâmide. Está mais elevada na crista e tem um ângulo mais acentuado; assim, parece maior apesar de ser menor em altura e volume, e ainda conserva uma faixa de revestimento no topo, o que lhe dá um aspeto intacto à distância. O complexo incluía um templo no vale, onde apareceram várias estátuas de Khafre, o templo da Esfinge, uma rampa e um templo funerário.
A de Menkaure é a mais pequena das três e o único dos quatro grandes monumentos do planalto que já não mantém qualquer vestígio do revestimento polido original. Foi finalizada por volta de 2510 a.C. e inclui três pirâmides subsidiárias. Destas, é a que mostra com maior clareza a estrutura de uma pirâmide sem o revestimento.
A Esfinge
A Esfinge mede 73 metros de comprimento da pata à cauda, 20 metros de altura da base ao topo da cabeça e 19 metros de largura na parte traseira, sendo assim a maior estátua monolítica do país e, mesmo assim, mais pequena do que se pensa. Enfrenta o leste, em direção ao sol nascente, em linha com o culto solar do Antigo Império.
Passou a maior parte da sua história soterrada na areia. Já estava coberta até aos ombros no Primeiro Período Intermediário e a primeira limpeza conhecida foi cerca de 1400 a.C., quando o futuro Tutmósis IV desenterrou as patas dianteiras e colocou entre elas uma laje de granito a registar um sonho em que o deus lhe prometia o trono em troca dessa tarefa. Essa laje, a Estela do Sonho, ainda está no local. O monumento foi limpo novamente na época romana, sob Nero, e finalmente em 1926.
O nariz foi removido de forma deliberada, com varas ou cinzéis, e a ideia de que o canhão de Napoleão o destruiu é errada: o dano é registado desde pelo menos o século X e há um relato do século XV que culpa um sufista por se opor a oferendas à estátua. Fragmentos da barba cerimonial estão no British Museum e vestígios de pigmento vermelho no rosto sugerem que em tempos foi pintada. Não existe consenso quanto ao rosto representado. O mais aceite é o de Khafre, mas não há inscrições contemporâneas a confirmá-lo, e os argumentos por Khufu ou Djedefre nunca foram encerrados.
Quem a construiu, de facto
A resposta mudou nos últimos trinta anos e as provas estão no próprio local. A equipa de Mark Lehner escavou a povoação dos operários a sudeste dos complexos de Khafre e Menkaure e encontrou dormitórios comuns, padarias, cervejeiras e cozinhas onde pão, carne de vaca e peixe eram alimentos básicos, oficina de cobre, hospital e cemitério. Os enterramentos incluíam homens que sobreviveram a ferimentos típicos de acidentes de construção, e as sepulturas, próximas dos monumentos e com cerveja e pão para o além, reforçam que eram trabalhadores com orgulho no trabalho feito.
Quanto aos números, continua o debate. Heródoto ouviu dizer que a Grande Pirâmide requereu 100 000 homens em turnos de três meses durante vinte anos. Os historiadores modernos estudam as sepulturas e a povoação e calculam vinte a vinte e sete anos de obra, com vinte mil a trinta mil trabalhadores permanentes, e as evidências funerárias apontam para cerca de dez mil operários em simultâneo. Nada disto encaixa com a ideia de trabalho escravo popularizada no século XIX.
Como chegar e entrar
O planalto fica a oeste do rio, na cidade de Gizé, a cerca de nove quilómetros do Nilo e treze do centro do Cairo; por isso, a solução mais prática é táxi ou carro por aplicação, combinados antes de sair. O metro chega a Gizé e não vai além, restando o táxi para o último troço, e os grupos guiados chegam de autocarro durante a manhã.
Compra o bilhete pelo portal estatal egymonuments ou à entrada, e trata quem te tente vender um como vendedor, não como serviço. Camelos, cavalos e charretes seguem o mesmo princípio: o preço é discutível, deve ser combinado à frente de testemunhas antes de subires e nunca depois de desceres. O planalto foi alvo de uma renovação de €17 milhões por volta de 2021, que trouxe um centro de visitantes, autocarro elétrico, casas de banho, sinalização, o restaurante 9 Pyramids Lounge e wifi grátis, por isso o local está muito mais organizado do que a fama sugere. O Poço de Osíris, um poço funerário profundo de três níveis, abriu a visitantes em 2017.
O resto da necrópole
Gizé é a parte mais a norte de um sítio Património Mundial que se estende para sul por Abusir, Saqqara e Dahshur, e é esse contexto que faz valer a pena investir nas pirâmides mais do que numa fotografia. Saqqara abriga a pirâmide em degraus e as primeiras arquiteturas em pedra conhecidas, Dahshur tem as pirâmides que mostram a transição para o perfil liso, e Mênfis, capital do Antigo Império para quem todas serviam, fica entre elas. Um dia que começa em Gizé bem cedo e segue para Saqqara e Dahshur permite ver toda a sequência histórica pela ordem certa.
O Grande Museu Egípcio, inaugurado por completo a 1 de novembro de 2025, localiza-se a dois quilómetros do planalto, com mais de 100 000 objetos e as 5 398 peças da tumba de Tutankhamon em dois salões próprios. É o complemento natural do dia das pirâmides, sendo o único sítio no Egito onde estar dentro de portas à tarde compensa.