O rio Ounila está seco a maior parte do ano, e a aldeia ergue-se numa colina acima dele porque ali a água era baixa o suficiente para atravessar e alta o suficiente para vigiar. Durante seis séculos este foi um ponto de paragem na rota que levava sal, ouro e escravos pelo Atlas até Marraquexe, e o ksar é o que quatro séculos desse trânsito ergueram em barro.
É estranho chegar ali, porque parece um cenário de cinema e aparece realmente em dezenas deles, o que leva a desconfiar. Depois nota-se que os muros se desgastam exatamente nos sítios onde se desgastariam se o cinema não tivesse sido inventado, que há estendais por detrás de portas, e o lugar assume-se: uma aldeia deixada para trás, onde alguns voltaram.
O que realmente estás a ver
A colina está fortificada desde o século XI, no tempo almorávida, numa das poucas passagens entre Marraquexe e o Sara. Nada do que ficou de pé é anterior ao século XVII, mas quem construiu depois usou os mesmos métodos, por isso toda a aldeia parece uma só coisa: casas agrupadas dentro de muralhas com torres nos cantos e um só portão, casas altas na parte baixa com padrões geométricos nos andares superiores, uma mesquita, uma caravançarai para viajantes, várias casbahs e o marabuto de Sidi Ali ou Amer.
No topo da colina ficam as ruínas de um grande celeiro fortificado, um agadir, palavra que foi dar um dos nomes mais úteis da língua: é o mesmo nome da cidade costeira. Há ainda uma praça pública, um cemitério muçulmano e um cemitério judeu, este último a lembrar que as aldeias do sul tinham populações mistas até meados do século XX, e fora das muralhas encontra-se terra plana onde se cultivava e malhava cereal.
O material é a chave. Aqui tudo é taipa, adobe, tijolo de barro e madeira, feito com terra, palha e pressionado em moldes. É barato, mantém as casas frescas, mas exige vigilância constante: aldeias deste tipo começam a ruir em poucas décadas após o abandono. Os edifícios altos têm taipa até ao primeiro andar e adobe mais leve a partir daí, o que ajuda os muros a suportarem o peso. A UNESCO chama-lhe um exemplo autêntico que só sobreviveu porque as reparações nunca pararam.
Ouarzazate e os estúdios ao lado
Ouarzazate é a capital provincial, com cerca de 79 000 habitantes, a 1 151 metros de altitude, num planalto árido a sul do Alto Atlas. Chama-se porta do deserto porque é exatamente isso: a última cidade antes do vale do Draa e das areias. Tem o seu próprio monumento em terra crua, a Casbah Taourirt, edificada em taipa e ampliada pelos Glaoui, que governavam o sul pelos franceses com um canhão à porta para mostrar serviço.
A indústria do cinema chegou nos anos 80 e ficou. O Atlas Studios foi fundado em 1983 e reclama ser o maior estúdio do mundo em área; outro, o CLA, abriu em 2004. Entre 20 e 50 produções estrangeiras filmam aqui por ano, atraídas pelo deserto, montanhas, casbahs, equipas experientes e um processo de autorizações rápido. O Museu do Cinema, em frente à casbah, é pequeno, bem disposto e mostra o que se fez e se deixou.
Como chegar: a passagem e o vale
Quase toda a gente vem de carro pela Tizi n’Tichka, a passagem alta por onde segue a estrada principal de Marraquexe para sul. É uma subida longa, cheia de curvas e filas atrás dos camiões, e a viagem onde se percebe quanto o Atlas separa dois mundos. Vindo de Marraquexe é um dia inteiro com paragem no ksar; vindo de Ouarzazate é só uma curta viagem a oeste.
A outra opção é a rota antiga das caravanas pelo próprio vale do Ounila, passando em Telouet e pelas ruínas do palácio Glaoui. É mais lenta, irregular e muito melhor, com aldeias como Tamdaght e outras pelo caminho, e, se tiveres carro e um dia livre, é a mais prática forma de vir. Os autocarros fazem excursões de um dia desde Marraquexe, significando seis horas sentad@ para três horas de passeio, por isso vale a pena dormir uma noite ali.
Quando ir
Ouarzazate tem um clima de deserto com inverno a sério. As máximas médias rondam os 17 graus em janeiro e chegam aos 38,8 em julho, e chove perto de 115 milímetros por ano, quase tudo em poucos dias de inverno e praticamente nada entre junho e setembro. As manhãs de janeiro podem ser geladas, por vezes há neve na cidade, e as tardes de verão são realmente tão quentes quanto as médias indicam, então o dia de passeio começa cedo ou já no final da tarde.
Isso deixa duas épocas ideais: março a maio, com o vale quente e luz longa, e outubro a novembro, quando já não faz calor mas os céus continuam limpos. O verão é suportável se fores cuidado com as horas de maior calor, e o inverno é bonito e frio, com o Atlas branco acima da aldeia e as casbahs a recortarem-se contra ele.
Aït Benhaddou vale a longa viagem por si só, mas compensa ainda mais: ensina-te a olhar para paredes de terra crua, e depois disso cada casbah, ksar ou aldeia nos vales do sul deixa de ser cenário e passa a ser engenharia a céu aberto que podes ler.