Chefchaouen é uma vila mercantil no Rif ocidental que se tornou, sem planear, um dos lugares mais fotografados de Marrocos. O nome explica a paisagem: vem do árabe para ver e do berbere para cornos, ou seja, olha para os dois picos acima do vale.
O que a torna diferente é não ser um destino turístico de propósito. É capital de província a funcionar, com cerca de 46.000 habitantes, tem mercado, hospital e estação rodoviária, e o azul está nas paredes por onde toda a gente passa a caminho do trabalho. Por isso o fim do dia é melhor do que a tarde.
Porque é azul a cidade
Há três respostas, e toda a gente em Chefchaouen dá-te pelo menos uma delas.
A primeira são os insetos: diz-se que o azul afasta os mosquitos, importante num vale com água a correr. A segunda é religiosa: o azul representa o céu e o paraíso, e pintar as paredes assim lembra-nos de viver com esse sentido. A terceira é prática e bem mais recente, e é a que alguns locais dizem: nos anos 1970, a vila foi orientada a pintar-se de azul numa altura em que se incentivava o turismo.
O que nunca se discute é a base, cal branca andaluza trazida por refugiados de Espanha, , nem o facto de o azul ser retocado à mão todos os anos, por isso nunca parece gasto.
Uma fortaleza tornou-se cidade
Ali ibn Rashid ergueu a kasbah em 1471 para defender o norte dos portugueses, e os seus descendentes e refugiados de Granada acabaram a obra. Após 1492 e outra vez depois das expulsões de 1609, famílias muçulmanas e judias de Espanha instalaram-se aqui e construíram como sabiam: ruas, pátios e portas são andaluzes, não marroquinas.
A vila era então murada, com cerca de dez portas, e não cresceu além dessas muralhas até ao século XX. A governante mais conhecida foi provavelmente Sayyida al-Hurra, que administrou Chefchaouen e, a partir de Tétouan, comandou uma frota de corsários no século XVI. Uma comunidade judaica ibérica viveu aqui durante séculos, chegou a ser um terço da população, e ainda existem o mellah e o cemitério judeu; a última família saiu em 1968.
A medina em meio dia
Começa na praça Uta Hammam, centro da vila antiga: a kasbah de um lado, a Grande Mesquita e o seu minarete octogonal noutro, e uma antiga pousada de mercadores, uma de quatro ainda na cidade. Foi desenhada no século XVI e o nome vem do hammam num dos cantos.
A kasbah merece o pequeno bilhete de entrada. Tem muralhas em taipa reforçadas por dez torres, e o pátio tornou-se museu de arqueologia e vida local, com um jardim central. Daí desce ao Souika, o bairro mais antigo, que é mercado desde o século XV, e procura as fontes: Ain Souika, enfiada num arco, e a fonte de quatro lados na praça principal.
A leste da medina, por fora das muralhas velhas, fica Ras al-Ma’, a nascente que abastecia a vila, com o seu tanque de pedra, um moinho antigo e ponte sobre a ribeira. A partir daí sobe-se a pé à Mesquita Espanhola, erguida nos anos 1920 e já sem uso religioso, onde toda a gente acaba o dia a ver o sol baixar sobre Chefchaouen. São vinte minutos de subida, vale o esforço.
Akchour e o parque nacional de Talassemtane
As montanhas atrás da vila estão protegidas. O parque nacional de Talassemtane existe desde 2004 e abrange 589 quilómetros quadrados entre 350 e 1.050 metros de altitude; acolhe o último núcleo viável de abeto marroquino, árvore rara mesmo no mundo. Contam-se mais de 1.380 espécies de plantas, 47 só ali, além do abutre-barbudo e mais de cem aves.
O vale a visitar é Akchour, desfiladeiro com poços naturais e uma ponte de pedra chamada Ponte de Deus, acessível por estrada e depois uma caminhada de cerca de duas horas. Guias locais esperam no parque de estacionamento, e vale a pena ir com um, não tanto pela segurança, mas para saber qual trilho vai à água e qual só dá em caminho de cabras. A gruta Kef Toghobeit, das mais profundas de África, fica no mesmo maciço.
Como chegar
Chefchaouen não tem aeroporto. As estradas vêm de Tétouan e da costa norte, de Ouazzane a caminho de Fez e das colinas de Larache; a vila está entre Tétouan e Ouazzane, por isso todos os autocarros passam por lá. A maioria dos visitantes chega de autocarro ou táxi partilhado, vindos de Tânger ou Tétouan a norte, ou de Fez a sul; o último troço sobe pelo Rif e dura mais do que parece no mapa.
A estação rodoviária fica a poucos minutos a pé da medina, o que surpreende quem espera ter de apanhar táxi. Se vieres de carro, estaciona fora das muralhas: as ruas são só para peões, e o acesso de viatura a quase todas as guesthouses é por um portão e depois escadas.
Quando ir
Chefchaouen tem clima mediterrânico a 564 metros, o que na prática é ameno, verde e mais húmido do que grande parte de Marrocos.
Os registos de chuva na estação da vila, entre 2000 e 2020, vão de 500 milímetros nos anos secos a quase 1.900 nos mais húmidos, e isso diz tudo sobre o tempo no Rif: imprevisível e generoso. A primavera é verde e com flores espontâneas, o outono é claro e quente, e o verão traz mais visitantes, mas noites agradáveis nos terraços. O inverno é frio e frequentemente chuvoso, e a neve cai nos picos acima da vila.
O que comprar, e um aviso
A madeira é o artesanato local, moveis torneados e pintados, caixas e tábuas em cedro, nogueira e tuia, , e é a produção artesanal mais relevante da vila. Couro, têxteis e ferro preenchem o resto das lojas, quase todas de cooperativas e não de intermediários, e os preços são mais acessíveis do que em Marrakech.
Uma precaução: o Rif é região de cultivo de cannabis, e é oferecido de forma casual em alguns trilhos e terraços. O conselho consular britânico para Marrocos lista delitos por drogas entre os mais graves, com penas longas de prisão, e o mesmo se aplica a qualquer coisa que te peçam para transportar. Qualquer que seja a proposta, o risco é teu e não de quem oferece.
Chefchaouen é uma vila para duas noites disfarçada de passeio rápido. Chega de manhã, percorre as ruas enquanto há movimento e a luz é crua, mas fica: a vila esvazia às cinco, o chamamento do muezim ouve-se pelos telhados azuis e o lugar volta a ser só dele. Essa é a hora que justifica a viagem.